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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

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Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

Primeira Folha

Janeiro 02, 2005

 


O sol já não era de Verão. Nem o mar. As marés vivas rugiam violentamente contra as rochas, contra o verde muito escuro da falésia. O coração do mundo ardia na linha do horizonte e os seus gritos de adeus chicoteavam e rasgavam o céu pesado, incendiavam a superfície do mar até ao branco que explodia aos pés de uma varanda toscamente esculpida na pedra.


De pé, sobre o muro da varanda, Cristina, permaneceu imóvel até que o sol desaparecesse por completo. Até que a noite se estendesse por toda a paisagem. Sem estrelas, sem lua. Noite, sombra, trevas apenas. Escuridão e o ruído persistente dos dedos do mar a escavar a rocha alguns metros abaixo de Cristina.


A espaços, a luz de um farol passava por ali e iluminava a varanda. Nesse longo milésimo de segundo, o vestido branco que ondulava ao sabor da lentidão nocturna, surgia espectral, como se o espírito da falésia por ali estivesse em contemplação.


Segundos antes de um sino distante anunciar o fim do dia, soprou um vento mais forte. Soprou e abriu a cortina de nuvens que escondia a lua. Com a luz repentina, revelou-se também todo o esplendor de um corpo jovem. De um corpo perfeito. De um corpo que, mesmo imóvel, parecia cantar e encantar o tempo obrigando-o a parar. O cabelo, de um negro quase assustador, aproveitava o vento mais forte para voar como um falcão ao redor da próxima presa, mas mais lentamente. Muito mais lentamente.


Com a primeira badalada, Cristina abriu os braços, formando dois perfeitos ângulos de noventa graus e projectando, como sombra, uma imensa cruz sobre a parede da falésia. Provavelmente assustados com a treva que lhes invadia os ninhos, alguns pássaros abandonaram os buracos na pedra e desapareceram rapidamente, deixando para trás apenas os gritos e algumas crias, talvez famintas.


Com a última badalada, vindo sabe Deus de onde, o silêncio desceu e sufocou o mar, os pássaros e a noite. Sufocou a lua, sufocou toda a paisagem. Só não sufocou Cristina, que nesse preciso instante, abriu os olhos, olhou a lua totalmente muda, sorriu e disse-lhe baixinho:


- Serei eu a primeira folha deste Outono.


Sem hesitar, Cristina abandonou a sua árvore. Como para todas as folhas que morreram nesse Outono, e para que pudesse a queda ser da inominável beleza que se repete a cada Setembro, o tempo correu mais devagar. Devagar, para que nem um som se ouvisse com a entrada no mar da primeira e mais bela de todas as folhas.

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