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Red Tales

(...) cá estou eu, por aqui, a fingir que sou eu que por aqui estou (...)

Red Tales

>> Cuidemos de Todos Cuidando de Nós <<

 

Alguns dos textos aqui contidos são de cariz sexual e só devem ser lidos por maiores de 18 anos e por quem tiver uma mente aberta. Se sentir algum tipo de desconforto com isso ou se não tiver os 18 anos ou mais, por favor SAIA agora.

AVC-R - Cap II

Novembro 24, 2020

O vácuo preenche a minha vida e, mesmo com o desinteressado e incondicional apoio da minha família, uma dolorosa, total e escura falta apoderou-se das tarefas mais simples. Até a comida é demasiado salgada. Os dias sucedem-se e nada muda. O tempo é lento e vem armado. O vento fere com gritos. As ruas estão vazias. Não acredito na existência de anjos (ela acreditava), mas acredito na poesia, no amor e em uma forma qualquer de destino que aqui me trouxe. No entanto, nada resta senão o frio e o som de lágrimas a perderem-se com violência no chão. Toda a beleza morre um dia. Lágrimas e lágrimas. Saudade. Ela tinha uma tatuagem: amor omnia vincit. No pé esquerdo. O amor como suporte.

Não tenho dúvidas que me seria mais fácil reagir ao mais prolongado dos males que a esta atroz e pesada ausência. Das poucas coisas que me consola é pensar que esta silente agonia poderá ajudar-me a reconhecer a alegria quando ela chegar. É provável que venha a ser triste na alegria, por isso vou aproveitando para tentar procurar alguma alegria na tristeza.

Ainda faço amor com a Margarida quase todos os dias. Sempre que escrevo um poema ela é cada um dos versos. Quase todos os dias lhe escrevo. Com ela o tempo era tão instável como o que corre nos sonhos e nos meus versos. O sofrimento foi simples: acordei e já não eram as mãos dela que afastavam a luz dos meus olhos (dorme mais um pouco). A manhã foi longa. Escura. Chovia. Recordo com nitidez o estardalhaço que os corpulentos e compactos pingos faziam nos beirais. Naquele dia, tudo se tornou mais cruel: a terra, o mar, os jardins, o céu. A própria vida tornou-se mais cruel. Acordei e já não tinha a corda que me amarrava aos dias a sorrir. Não mais teria os seus olhos a iluminar a escuridão em que eu caminhava. Estavam fechados para sempre. Não mais poderiam encorajar os meus passos apavorados. Soube, naquele momento, que nunca mais veria a Lua deitar-se entre nós. A estender devagar os braços e a envolver com ternura os nossos corpos despidos. Foi como se todas as portas se fechassem e eu ficasse do lado de fora de todas elas.

Ainda procuro, todas as noites, uma rua cálida onde a voz da Margarida seja o meu suão e o meu mapa; a minha fogueira; o fio onde equilibro a minha existência. Agora só solidão. As recordações, mesmo as boas – se é que se podem chamar boas a memórias que não fazem sorrir –, só servem para tornar ainda mais profunda a dor da sua ausência. E dói. Doem muito os rasgões no corpo que ela já não preenche com a voz. Dói muito a carne viva em que ficam os olhos de tanto a procurar.

Antes de partir, a Margarida era, não só, as minhas pernas, braços e mãos, como também, o meu coração e sobreviver sem um é espinhoso. Não tem sido nada fácil esta empreitada: tentar recuperar sem o seu dom na minha vida tem sido uma tarefa que não desejo nem ao mais bárbaro. Podia, no entanto, ser ainda pior. Tenho tido bastante sorte e, modéstia à parte, algum mérito. Por falar em modéstia, há quem me acuse de não a ter. Estão totalmente à vontade, mas deixem-me dizer a essas criaturas: estão a confundir imodéstia com amor-próprio e com não ter vergonha da realidade. E com isto vou apenas conseguir novas acusações.

AVC-R - Cap I

Novembro 23, 2020

A verdade sobre o amor nunca foi escrita. Nunca poderá sê-lo. São inúteis todas as palavras e símbolos que conhecemos para descrever algo que na realidade não existe em forma alguma. Que existe em todas as formas e não-formas, mas que não existe em forma alguma.

Tudo o que foi escrito sobre o amor são criações. Criações da alma, do espírito e da mente. Criações de poetas, prosadores, pintores, filósofos, psicólogos, sociólogos e profetas. São definições criadas por vós, por mim, por novos e velhos, homens e mulheres. Todos alteramos a definição de amor. Alteramo-la à medida que muda o objeto do nosso amor, alteramo-la através da erudição, da experiência, da religião, do sofrimento e da alegria. Alteramos as definições, mas não alteramos o amor.

Somos tristes por amor, somos felizes por amor, sonhamos por amor e não dormimos por amor. Amamos pais, filhos, irmãos e amigos, livros, cinema, música e teatro, montanhas, florestas, praias e desertos. Amamos pessoas de outro sexo, do mesmo sexo ou de ambos. Amamos uma, duas, três pessoas em separado e ao mesmo tempo também. Amamos o desconhecido, o conhecido, o sonho e a realidade. Amamos deuses, deusas, ninfas, musas, heróis, vilões, monstros, dragões e demónios. Em tudo encontramos amor e tudo pode ser objeto de amor. Experimentem! Escrevam ou pronunciem um nome ou um símbolo, procurem e nele encontrarão Amor.

Porque há amor nas palavras, no silêncio, no mar, na terra, no Sol, na Lua, no dia e na noite: é tudo o amor.

Porque vivemos por e para o amor, porque morremos, matamos, ferimos, curamos e salvamos por amor, pelo amor e no amor: é tudo o amor.

Porque corremos e paramos, compramos e vendemos, lutamos e desistimos, porque há guerras por amor e paz graças ao amor: é tudo o amor.

O amor é sentimento e não-sentimento, é matéria, é espírito e é mente. É forma e não-forma. O amor é tudo e sendo tudo o amor é também o nada.

Será isto o amor? Um Tudo-Nada?

Meu Deus, quão inúteis são estas palavras e todas as nossas dúvidas!

Amar somente.

avc-r

Abril 24, 2016

Na manhã seguinte lá estava eu ansioso por repetir tudo. Em especial, ansioso por repetir a ida ao café e com esperança de também a noite se repetir

noite

 

avc-r

Abril 21, 2016

- Para quê perder tempo? Já o fiz durante anos e perder tempo é a pior das perdas. É pior que perder a vida. Eu já perdi um deles e quase a outra – tenho bastante conhecimento de causa. Uns 85% dele.

tempo

 

avc-r

Abril 20, 2016

Depois de administrado o fármaco, a Dalila levou-me ao gabinete onde eu tinha conhecido e sido acompanhado pelo Miguel. Outra pessoa o ocupava.


- Olá, Jorge. Este é o Rodrigo.


- Obrigado, Dalila. Olá, Rodrigo. Sou o Jorge, sou fisioterapeuta e vou acompanhá-lo nos próximos dias. Posso?


Agarrou as pegas da cadeira, desviando cordialmente a Dalila e mostrando que queria ser ele a empurrá-la:


- Muito gosto, Jorge.


Os tratamentos do Jorge eram


 


fármaco


 

avc-r

Abril 19, 2016

Depois dos dois exames, a doutora Mariana recebeu-me, de novo, no, bem decorado, gabinete dela:


- Estive a ver os seus exames e o seu cérebro está em perfeitas condições de prosseguirmos com o ensaio. Quando quer começar?


- Assim que vos for possível.


- Como sabe, o tratamento baseia-se em injeções. Temo-las prontas e podemos começar quando quiser.


- Pode ser já amanhã


ready or not


 

avc-r

Abril 16, 2016

- Olá, eu sou o Rodrigo Saramago e tenho 42 anos.


- Excelente. Repita, mas mais devagar quando falar.


Repeti aquilo umas dez vezes até que o Miguel disse:


- Excelente. Agora leia em voz alta esta folha.


 


 



Sabendo o que sei e sabendo o que sabes e o que não sabes e o que não sabemos, ambos saberemos se somos sábios, sabidos ou simplesmente saberemos se somos sabedores.


 


O tempo perguntou ao tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que não tem tempo para dizer ao tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.


 


Em baixo da pia tem um pinto que pia, quanto mais a pia pinga mais o pinto pia!


 


A sábia não sabia que o sábio sabia que o sabiá sabia que o sábio não sabia que o sabiá não sabia que a sábia não sabia que o sabiá sabia assobiar.


 



terapia da fala


 

avc-r

Abril 15, 2016

Algo de céu. Uma unicidade. Sempre que ela falava parecia-me que a voz ficava suspensa no ar e me abraçava num terno envolver. Sorri:

 

- Olá. É o José Carlos. É meu primo.

 

- Olá. E olá, José. Não sabia que era teu primo, mas já o tinha visto ontem.

 

- Olá, Dalila.

 

- Como é que sabes o meu nome? Não respondas, não respondas. – Perguntou e respondeu num só fôlego.

 

céu

 

 

avc-r

Abril 14, 2016

A minha vida tem sido a prova que os planos a longo prazo podem correr muito mal. Aos vinte eu estudava engenharia e imaginava-me a trabalhar toda a vida na área. Plano furado. Aos vinte eu namorava e fazia daquele namoro um projeto eterno. Plano furado. Com a idade que tenho delineava já ter filhos. Plano furado. Apenas três eventos furaram uma quantidade enorme de planos. A


 


planos-furados


 

avc-r

Abril 13, 2016

Depois de uma rápida e superficial leitura da minha cronologia, voltei-me para o que tem sido o meu, quase, vício dos últimos meses:


- Olá, Isabel. Por aí?


- Olá. Sim, que tal o dia? Tranquilo? Foste lá ao laboratório?


- Calma. Tanta pergunta. Bom. Sim e sim.


- Conheceste a tal doutora? Que te disse ela?


- Continuas imparável. Conheci e não me disse nada de especial. Disse que tinha que me fazer uns testes. E deu-me um termo de responsabilidade para eu ler e se concordar: assinar.


- E já leste?


- Não, mas já assinei.


- Assinaste sem ler?


- Sim. Esteja lá o que estiver eu quero fazer o ensaio.


- E se lá disser que depois do ensaio vão-te matar? É melhor leres.


- Achas que vai lá estar uma coisa dessas?


- E se estiver? Não sabes. Não leste, não sabes.


- Isto pode parecer um absurdo, mas a vida está cheia deles e o pior é que alguns vêm mascarados e enganam a razão. Por vezes o instinto fala muito alto e, neste momento, o meu está aos gritos a dizer que eles são de confiança.


 


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